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[Mateus Capelari e Pedro Veiga] – Vale a pena intensificar a recria?

[Mateus Capelari e Pedro Veiga] – Vale a pena intensificar a recria?
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MATHEUS CAPELARI
PEDRO VEIGA
Consultores da Cargill Nutrição Animal

A criação de um modelo de engorda a pasto mais eficiente passa necessariamente pelo encurtamento do período de recria. Investir na recria, era algo antes impensável na pecuária tradicional. Mas, tem se tornado uma realidade e, principalmente, trazido bons resultados financeiros. Por isso, abaixo listamos alguns fatores que irão colaborar para esse processo no curto/médio prazo: 

  • O aumento da demanda de animais jovens para a engorda intensiva, seja a pasto ou confinada;
  • A necessidade de atender às exigências da indústria, cada vez mais voltada à exportação, e que exige um animal jovem de até 30 meses; 
  • A diminuição das margens do produtor, que precisará focar em retorno por área/ano e não mais por animal abatido; 
  • O crescimento da integração lavoura-pecuária, que aumentará a oferta de grãos para suplementação e, a recuperação de áreas degradadas de pastagem.

Dentro do sistema de engorda brasileiro atual, a recria corresponde ao período mais longo e mais variável com relação ao uso de tecnologias, e apesar de ser uma fase em que o animal converte de forma eficiente nutrientes da dieta em carcaça,  é justamente no pós-desmame que se encontra o principal desafio do gado: superar a primeira seca, e as consequências que ela traz, para a disponibilidade e qualidade dos pastos. No entanto, diversos projetos pecuários têm conquistado resultados positivos na recria com a implementação de estratégias nutricionais e de manejo, acelerando a recria do gado e aumentando o retorno financeiro. 

No pós-desmame, os animais estão fisiologicamente em crescimento de estrutura corporal, ou seja, ainda não alcançaram a maturidade. Comparativamente, a conversão de alimento em ganho de carcaça em animais jovens e leves, é melhor que em animais adultos e mais pesados e, portanto, o investimento em nutrição nessa fase tende a render bons resultados. Isso se deve ao fato de que animais mais erados e pesados, tendem a depositar mais gordura, um componente da carcaça que demanda mais energia.

Além disso, um melhor ganho de carcaça durante a recria, maximiza o ganho ao longo do ciclo de produção, pois animais sem limitação de nutrientes na recria tendem a ganhar mais carcaça durante a engorda.

Esse tópico inclusive ainda gera muita confusão no campo. Muitas vezes, o ganho compensatório durante a engorda, comum em animais que sofreram com alguma restrição de alimentos durante a recria, é ainda comemorado em alguns locais. Sabe-se que o ganho compensatório é resultado também do crescimento e desenvolvimento de órgãos envolvidos no processo digestivo dos animais, conhecidos como componentes não-carcaça e, portanto, não geram resultados financeiros ao produtor.  

Um trabalho publicado recentemente, evidenciou essa situação e nos ajuda a entender a importância da nutrição na recria, sobre a composição do ganho e retorno financeiro ao longo do período de engorda. No período pós-desmame os animais foram submetidos a 3 planos nutricionais durante a recria, seguido de terminação com alto concentrado conforme a tabela 1 abaixo: 

Tabela 1 – Esquema dos planos nutricionais avaliados no trabalho, com diferentes ganhos de peso diário (GPD) na recria, seguido do mesmo plano nutricional na terminação.  

RecriaTerminação
GPD baixo – 0 Kg/diaGPD alto
GPD médio – 0,6 Kg/diaGPD alto
GPD alto – 1,2 Kg/diaGPD alto

O estudo observou que, os animais no tratamento para alto desempenho na recria converteram nutrientes de forma mais eficiente, ou seja, produziram mais carcaça quando comparado aos demais tratamentos. Mas, o mais interessante é o resultado na engorda e, também o retorno financeiro da operação.

Na engorda, os animais que passaram por restrição durante a recria ganharam mais peso, mas o pior resultado desses animais nesta fase, foi apenas parcialmente compensado na terminação, ou seja, mesmo com o ganho compensatório, os animais que passam por restrição alimentar na recria não conseguem atingir o mesmo padrão de ganho de carcaça, que animais que não sofreram restrição alimentar. 

Mas, e para o bolso do pecuarista, será que vale a pena investir na recria? 

É preciso destacar que intensificar a recria necessariamente passa por aumentar a oferta de nutrientes para os animais, principalmente durante o período seco do ano. Isso acontecerá de três maneiras: 

  • Suplementação estratégica com proteinados ou protéico energéticos; 
  • Vedação/diferimento de pastagens;  
  • Utilização de estrutura de confinamento para fornecimento de volumoso no cocho. 

O mesmo trabalho discutido acima, também avaliou o retorno financeiro para os 3 planos nutricionais utilizados na recria sobre o resultado financeiro da operação recria+engorda, nos trazendo uma boa visão da importância do retorno ser avaliado com base em ganho de carcaça. Em resumo, a recria conduzida com planos nutricionais para baixo ganho, ou seja, apenas mantendo o peso do animal ao longo da recria, gerou prejuízo.

Esse prejuízo foi compensado parcialmente durante a engorda, mas o melhor resultado financeiro considerando todo o período (recria+engorda) ficou com a estratégia para alto ganho na recria (1.2 Kg), conforme evidenciado na Figura 3 abaixo. Isso não significa que essa deva ser a estratégia de escolha para qualquer fazenda, especialmente no Brasil, onde encontramos diferentes situações de acesso a grãos, logística, tipo de raça e climas, mas sim, que o ganho de carcaça durante a recria+engorda, apesar do custo maior com suplementação, gerou mais lucro na situação experimental. 

Figura 3 – Efeito de 3 planos nutricionais distintos na recria (baixo (0g/d), médio (0,6 Kg/d) e alto (1,2 Kg/d) ganho de peso) sobre o resultado financeiro ($ – dólares) ao longo da recria, engorda e recria + engorda. As setas vermelhas indicam prejuizo para o plano nutricional baixo na recria, e o quadrado vermelho indica o resultado financeira ao final da operação recria+engorda. 

Fonte: Adaptado de Silva et al., 2020

A figura 4 abaixo ilustra o que podemos esperar com diferentes tipos de estratégias nutricionais durante o período seco.  As simulações foram realizadas com a ferramenta Predição de Desempenho a Pasto, da Cargill/Nutron. Essa ferramenta nos permite avaliar, com boa precisão, o que podemos esperar em diferentes variáveis de desempenho zootécnico e financeiro.

A ferramenta deriva de uma meta-análise que avaliou o desempenho de aproximadamente 3.000 animais em mais de 60 experimentos (teses, dissertações e artigos) publicados no Brasil. Vale ressaltar que níveis maiores de suplementação, desde que bem conduzidos, aumentam o potencial de desempenho e de retorno financeiro, mas aumentam também os investimentos em estrutura, logística e mão de obra treinada, portanto, a avaliação de qual estratégia é a melhor vai depender da realidade de cada fazenda.

Figura 4 – Expectativa de ganho de peso para cada estratégia nutricional. As projeções foram realizadas utilizando a ferramenta Predição de Desempenho a Pasto da Cargill/Nutron

Tabela 2 – Importância da relação ureia para proteína verdadeira e qualidade dos ingredientes farelados em suplementos proteicos e proteico-energéticos. 

ItemImportânciaResultado
Correta relação entre ureia/proteína verdadeira no suplementoOs bovinos precisam de proteína verdadeira para a produção de 3 aminoácidos essenciais, são eles valina, leucina e isoleucinaComprometimento da digestibilidade e do fornecimento de nutrientes para o animal = menor desempenho
Qualidade dos ingredientes fareladosIngredientes de baixa digestibilidade (resíduos de colheitas) são menos aproveitados pelo gadoDiminuição do ganho de peso

E, não menos importante: Água!

            É sempre importante ressaltar que disponibilidade e qualidade de água são fatores fundamentais para o bom desempenho do gado. Durante o período seco do ano, o produtor que utilizada aguadas naturais ou reservatórios naturais como cacimbas, precisa redobrar a atenção quanto a qualidade e disponibilidade desta água. Reservatórios que tendem a secar reduzem a disponibilidade ou dificultam o acesso do gado a água e, isso pode resultar em menor consumo de alimento e ganho de peso. Esse tipo de reservatório tende a ficar mais raso com a diminuição das chuvas, muitas vezes forçando os animais a entrarem no reservatório para ter acesso a água. Esses fatores podem aumentar a concentração e ingestão de toxinas, como a toxina botulínica (Souza et al., 2006;), além facilitar a contaminação por bactérias e vírus que são eliminados com fezes e urina.        

Figura 5 – Animais dentro de reservatório, fator que aumenta proliferação de doenças e potencial de ingestão de toxinas. 

Referências:

Souza et al. 2006. Esporos e toxinas de Clostridium botulinum dos tipos C e D em cacimbas no Vale do Araguaia, Goiás. Pesquisa Veterinária Brasileira. 

Silva et al. 2020. Post-weaning growth rate effects on body composition of Nellore bulls. Animal Production Science. Acesso: https://doi.org/10.1071/AN19032.  

FONTE: Amanda Pimentel – ALFAPRESS COMUNICAÇÕES
amanda.pimentel@alfapress.com.br

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