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Estratégias de alimentação reduzem emissão de gases em ovinos do Semiárido

Estratégias de alimentação reduzem emissão de gases em ovinos do Semiárido
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O Estudo publicado pela Embrapa Caprinos e Ovinos (CE) aponta que estratégias de nutrição para raças de ovinos localmente adaptadas ao Semiárido podem reduzir a emissão de gases de efeito estufa por esses animais. Em ensaio experimental com 64 fêmeas da raça Santa Inês em período de crescimento, houve redução em até 57% da emissão de metano (um dos principais gases causadores de efeito estufa), quando se diminuiu a proporção de alimento volumoso na dieta. Com dieta semelhante, a redução da emissão em fêmeas em crescimento da raça Somalis Brasileira chegou a 30%.

No experimento, a dieta fornecida aos animais teve composição com alimentos volumosos (feno de Tifton) e concentrados (milho, farelo e óleo de soja), com variações em diferentes proporções. A melhor resposta em termos de mitigação de gases aconteceu com proporção de 20% de volumoso para 80% de concentrado. Esse resultado indica que a utilização de dietas com maior produção de ingredientes concentrados em nutrientes solúveis (grãos, tortas, farelos, óleos vegetais) pode representar importante alternativa mitigadora de gases de efeito estufa, como metano (CH4) e dióxido de carbono (CO2), para ovinos de grupos genéticos localmente adaptados ao Semiárido brasileiro – desde que os animais passem por período de adaptação, necessário às chamadas Dietas de Alto Concentrado

A observação demonstrou a possibilidade de que variáveis como a relação de volumoso e concentrado na dieta, a qualidade da forragem e a espécie forrageira consumida podem influenciar a produção de metano entérico (produzido pelo processo digestivo e emitido por flatulência ou arroto) por parte dos animais. Um outro aspecto é a otimização do uso dos ingredientes nessas dietas. Pela pesquisa desenvolvida, foi possível reduzir em 15% os teores de nutrientes proteicos e energéticos nas formulações dietéticas em relação aos valores normalmente utilizados nas formulações no Brasil para ovinos em terminação. Isso representa redução de custos quando a estratégia é utilizar dietas de alto concentrado. Esses fatores têm estimulado os estudos que avaliam a composição das dietas e o manejo alimentar com plantas forrageiras que minimizem a produção desses gases.

Ovinos da raça Santa Inês (Créditos: Ana Carolina de Souza Chagas)
Relevância para a produção animal

Essas estratégias de mitigação dos gases por meio da nutrição ganham relevância para a produção animal: como a geração de metano integra a digestão das espécies ruminantes, é possível manipular a sua produção por meio da qualidade dos ingredientes dietéticos fornecidos a esses animais. O aumento na proporção de alimento concentrado verificado no estudo, por exemplo, estimula bactérias do processo ruminal que favorecem menor emissão desse gás. Outra vantagem é que com a otimização de nutrientes, há redução do período de confinamento e terminação (engorda para abate) desses animais.

“O metano é um produto oriundo da fermentação ruminal. Quando é ofertada uma dieta com maior proporção de forragem, ocorre maior produção desse gás. Ao reduzirmos a proporção de volumoso e aumentarmos a proporção de alimentos concentrados de rápida fermentação, a emissão de metano por animal é menor, consequentemente, por ciclo produtivo. Outra vantagem é que o animal pode ser terminado mais rapidamente e com isso aumenta o giro dentro da propriedade”, ressalta o zootecnista Clésio Costa, que conduziu o experimento na Embrapa, como atividade de seu curso de doutorado em Zootecnia na Universidade Federal do Ceará (UFC), sendo coorientado pelo pesquisador Marcos Cláudio Rogério, da EMBRAPA Caprinos e Ovinos.

Ovinos da raça Somalis Brasileira (Créditos: Marcos Cláudio Rogério)
Eficiência do processo digestivo

De acordo com Marcos Cláudio, observar essa relação em animais em fase de crescimento foi interessante, por ser categoria com exigência elevada de nutrientes. Além disso, foi possível obter informações referentes à eficiência do processo digestivo: a emissão de metano representa perda de energia bruta do alimento ingerido (que pode variar entre 6% e 12%) e pior desempenho do animal – condição verificável em termos de indicadores produtivos, como ganho de peso, produção de carne, entre outros. 

“À medida que melhoramos a eficiência de uso dos nutrientes, especialmente os nutrientes energéticos, induzimos a uma redução das emissões de gases, porque a gente melhora os processos metabólicos, especialmente aqueles que levam à produção de metano. Ao mesmo tempo, quando fazemos a redução da emissão de gases de efeito estufa estamos contribuindo também com a sustentabilidade ambiental dos sistemas de produção”, destaca Marcos Cláudio. 

Câmaras respirométricas

Uma tecnologia que facilitou a obtenção dos dados sobre a mitigação é a das câmaras respirométricas do Laboratório de Respirometria e Eficiência Alimentar da EMBRAPA Caprinos e Ovinos. Com os ovinos dentro dessas estruturas, é possível simular dietas e condições ambientais, como a temperatura e umidade relativa do ar, e mensurar, com mais acurácia, as trocas e emissões de gases da fisiologia de cada animal, permitindo, com isso, avaliar também a eficiência no uso de nutrientes. 

“Essa estrutura é a única do tipo em regiões tropicais semiáridas do planeta. Com ela, podemos gerar informações para nosso Semiárido e trazer informações para diferentes regiões semiáridas do planeta”, frisa Marcos Cláudio. De acordo com ele, as pesquisas terão continuidade para obter informações referentes à mitigação de gases em outras categorias de animais.

Recursos da Caatinga para mitigação

Além das indicações sobre composição da dieta fornecida em condições de terminação sob confinamento, a publicação também aponta outros fatores que podem contribuir para a mitigação de gases na realidade do Semiárido brasileiro: as técnicas de manejo para enriquecimento da Caatinga (introdução de espécies forrageiras para aumento da produção e qualidade da forragem) e o uso de recursos alimentares locais que possuem taninos em sua composição. 

Em um primeiro estudo, que avaliou modelos de produção com ovinos na Caatinga, a técnica do gás traçador revelou menor produção de gás metano no período chuvoso do ano, quando foi feito um processo de enriquecimento da área de pastejo. Isso acontece porque, com o enriquecimento, é possível ter uma forragem de melhor qualidade, facilitando a digestibilidade e um menor tempo de permanência do alimento no rúmen dos animais. 

A técnica do gás traçador baseia-se na introdução de uma cápsula no rúmen – estômago do animal – com uma taxa de liberação conhecida, misturando-se aos gases da fermentação ruminal e permitindo identificar e quantificar o metano produzido pelo animal. 

Quando se observou o comportamento dos animais em período seco, constatou-se que a alimentação em um pasto de menor qualidade, com maior percentual de lignina (componente da parede celular de vegetais que limita a digestibilidade) nas plantas, prejudica a digestão, favorecendo a retenção de alimento no rúmen e a taxa de fermentação, assim como uma maior produção de metano.

Um outro estudo citado na publicação mostrou bons resultados no uso da mucuna preta e de folhas de mufumbo para menor produção entérica de metano, quando comparados com espécies vegetais semelhantes. Em comum, a presença de taninos em sua composição, indicando efeito positivo para a mitigação. Uma dieta com introdução das folhas do mufumbo, por exemplo, reduziu em 50% as populações de bactérias responsáveis pela emissão de metano no sistema digestivo dos animais, quando comparadas com uma dieta que teve a mesma formulação, mas sem a presença do mufumbo.

De acordo com Marcos Cláudio Rogério, os taninos têm relação com esse potencial de redução do metano pelos animais. “Em um limite de até 4% da matéria seca, esses taninos podem ser importantes para reduzir as populações de bactérias que produzem metano”, explica ele. O pesquisador destaca, também, que a Embrapa Caprinos e Ovinos conduz, atualmente, pesquisa sobre avaliação de taninos condensados na suplementação de animais, para avaliar efeitos dessa dieta para a eficiência alimentar e a mitigação de gases, com resultados previstos para 2021

Fêmea da raça Santa Inês (Créditos: Ana Carolina de Souza Chagas)
Produção pecuária e emissão de gases

Segundo dados da FAO, na região que compreende América Latina e Caribe, os pequenos ruminantes (caprinos e ovinos) são responsáveis por aproximadamente 6% das emissões globais de gases de efeito estufa entre as classes de animais, ficando atrás dos bovinos de corte, bovinos leiteiros, aves e suínos. A produção animal, no planeta, contribui com 14,5% das emissões desses gases.

Entre os gases de efeito estufa emitidos pela produção animal no planeta, o metano (CH4) é responsável por cerca de 50%, seguido pelo dióxido de carbono (CO2) e pelo óxido nitroso (N2O), que representam 26% e 24%, respectivamente, dessa emissão. Por sua vez, desse montante de 50% da emissão de metano, 30% são provenientes dos animais ruminantes. Nesses animais, o CH4 pode ser gerado pela digestão, bem como emissões relacionadas à produção de alimentos para esses animais, manejo de dejetos, uso de energia e processamento de produtos de origem animal.

Esses dados reforçam a relevância da pesquisa para mitigação dos gases. Além das estratégias nutricionais, os estudos têm investido em manejo de pastagens, adubação nitrogenada, incentivo aos sistemas de produção agroflorestais, entre outras soluções tecnológicas.

Ovinos da raça Somalis Brasileira (Créditos: Marcos Cláudio Rogério)

“Esse tema é de extrema relevância para a pecuária brasileira, pois, por muito tempo, ouvimos falar que a produção de ruminantes era uma das principais responsáveis pela emissão de metano na atmosfera. Ao estudarmos estratégias de alimentação para mitigar a emissão dos gases podemos lançar, para a comunidade, respostas que irão auxiliar bastante os criadores de ovinos, tanto no quesito nutricional, visando a maximização da eficiência produtiva dos animais, como na garantia de uma produção sustentável ambientalmente”, avalia o zootecnista Clésio Costa.

FONTE: Adilson Nóbrega – EMBRAPA Caprinos e Ovinos
adilson.nobrega@embrapa.br

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