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[Enrique Alves] – Café canéfora é especial também

[Enrique Alves] – Café canéfora é especial também
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ENRIQUE ANASTÁCIO ALVES
Doutor na área de Engenharia Agrícola e, desde 2010,
atua como pesquisador A na EMBRAPA,
nas áreas de colheita, pós-colheita do café e qualidade de bebida.
Contato: enrique.alves@embrapa.br

Historicamente, o café da espécie arábica sempre foi considerado mais nobre, puro e de qualidade. E, talvez o Brasil tenha sido um dos grandes embaixadores desse conceito. O que chega a ser um contrassenso, logo o país da mistura e da diversidade não consegue enxergar beleza e sabor além do óbvio? É realmente uma questão amarga, tão indigesta quanto a bebida dos cafés colhidos verdes e pessimamente processados.

Os cafés canéfora sempre foram considerados como de segunda linha, que serviam para baratear blends (mistura) com arábicas de padrão baixo, ou para uso na indústria de solúveis. Realmente, as plantas da espécie canéfora são mais rústicas e produtivas e isto torna o custo de produção e comercialização competitivo para o uso industrial. Além disso, a constituição química de componentes como açucares, lipídeos, cafeína e tantos outros também são distintos entre as duas espécies.

O fato de a espécie canéfora apresentar uma “vantagem” com relação à sua facilidade de cultivo, talvez tenha se tornado o seu “calcanhar de Aquiles” ao longo dos anos. Isso fez com que os produtores de canéfora se preocupassem mais com a fase pré-colheita do que com as demais. Este tipo de produtor passou a buscar cada vez mais a produtividade e menores custos de produção. Tornou-se especialista em commodities.

Os produtores de arábica, por outro lado, começaram a se diversificar para a valorização da qualidade de bebida e busca por mercados mais exigentes e que poderiam pagar mais por esse tipo de grão. De forma geral, algumas regiões foram extremamente bem-sucedidas nessa estratégia de evolução. Que o diga a Região das Matas de Minas, que há décadas ajudou a nomear o pior tipo de café que seria possível produzir e comercializar, o “Rio Zona”. E, atualmente, é uma das regiões mais emblemáticas da cafeicultura nacional, com cafés finos e de características únicas.

Esse processo evolutivo da cafeicultura no país, produtividade para o canéfora e qualidade para o arábica, fez com que passássemos a ser extremamente injustos com nossos conilons e robustas. Ao ponto destes grãos não serem considerados cafés e receberem a alcunha de veneno, praga, entre outros adjetivos pejorativos. Talvez se trate de um dos maiores bullying agronômicos da história da agricultura.

Até entre os mais antenados do setor é comum ainda se ouvir: quer um café de qualidade? Procure no rótulo a descrição 100% arábica. E o consumidor passou a enxergar os nossos conilons e robustas como impurezas. A palavra blend ou mistura costuma frequentar as embalagens em letras miúdas.

Mas, como o café e a sua cadeia tem como características a capacidade constante de se reinventar, esta distinção negativa das espécies vai se tornando, a cada dia, mais obsoleta.

Assim como os cafés da Região das Matas de Minas, os canéforas estão evoluindo a passos largos. Tanto que, em 2018, a Brazil Specialty Coffee Association (BSCA) convidou os produtores de conilon e robusta de todo o país a se associar. O Brasil é, antes de tudo, um produtor de CAFÉS. Isso significa que é uma nação plural, que tem capacidade de ofertar ao mercado volume e qualidade, em diferentes espécies. Poucos países têm essa capacidade e isso precisa ser abraçado pela cafeicultura, em âmbito nacional.

Não se trata de um abandono às commodities, é apenas uma questão de diferenciação. Se o comércio mundial exige estratégias de guerra, é preciso proteger todos os flancos. E o mercado de cafés finos não pode ser ignorado, pois cresce mais de 15% ao ano. Mesmo internamente, quase 20% dos cafés vendidos nas gôndolas dos supermercados são de cafés finos e “gourmetizados” e os produtores de canéfora querem a sua parte desse quinhão.

Cafés do Brasil

O mal que aflige os produtores de cafés canéfora é a falta de investimento adequado em tecnologias para as etapas de colheita e pós-colheita, mas isto está mudando. Os cafés canéfora finos agora vêm de regiões que começam a ser reconhecidas como centros de origem de bebidas especiais da espécie como, por exemplo, as Matas de Rondônia para Robustas Amazônicos e os Conilons das montanhas capixabas ou planícies baianas. São cafés que vêm surpreendendo o Brasil e o mundo pela colheita de frutos maduros e secagem cuidadosa. Técnicas mais modernas de fermentação induzida ou positiva também são realizadas nesses cafés, que têm apresentado nuances de aromas e sabores, até então, inimagináveis para a espécie canéfora.

Se você ainda faz parte dos puristas, que acreditam que a qualidade é uma via de mão única, precisa rever seus conceitos. São muitos os caminhos que levam aos cafés especiais e a distância entre os canéforas finos e o consumidor estão cada vez menores.

Já são muitos os que começaram a desvendar os segredos desses cafés de fecundação cruzada e que exploram a sua variabilidade genética em regiões com diferentes climas, solos e aspectos culturais de produção.

Arábica ou canéfora, qual o melhor? A resposta para essa questão é: não existe pior ou melhor. As duas espécies têm características intrínsecas de aroma e sabor que podem ser valorizadas ou depreciadas de acordo com a forma que são manejadas. É como ter de escolher entre vinho branco ou tinto, bossa nova ou rock in roll. Para mim, a única pergunta que vale a pena aqui é… por quê?  Por que temos que escolher se podemos ter todos?

O Brasil possui uma cafeicultura tão única, rica e diversa que só deveríamos nos prender a um rótulo, que já estampa as nossas sacarias: CAFÉS DO BRASIL.

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